Flor de Lótus 2015 – “TARSILA DO AMARAL, O SOL LARANJA QUE ILUMINA A ARTE BRASILEIRA”

Justificativa

 

No Carnaval Virtual de 2003, a União do Samba Brasileiro fez parte do grupo de escolas que se filiou à LIESV para o primeiro desfile, porém, acabou por não desfilar em 2003. O enredo e o samba escolhidos para aquele desfile, sobre Tarsila do Amaral, foram apresentados no ano seguinte, no carnaval virtual de 2004. O desfile assinado por Willian Tadeu, que venceu o Troféu Clara Nunes de Revelação do Ano, foi marcado pela originalidade e fácil leitura e despontou como um dos favoritos do ano, alcançando os Troféus Clara Nunes de Melhor Enredo e Melhor Escola, dividindo o título das pesquisas populares com a Imperiais do Samba, que acabou se tornando a campeã oficial, enquanto a USB acabou por terminar em 5° lugar.

Para o Carnaval Virtual de 2015, a Flor de Lótus retoma o seu compromisso com a brasilidade e traz para a avenida a reedição do grande enredo apresentado pela União do Samba Brasileiro em seu primeiro desfile, “Tarsila do Amaral, o sol laranja que ilumina a Arte Brasileira”, levando para a avenida a obra de uma das maiores artistas brasileiras, que através de sua arte retratou o Brasil e sua cultura de maneira magistral.

Segue, a seguir, a sinopse original da União do Samba Brasileiro, apresentada no Carnaval Virtual 2003, que transmite o espírito do enredo e a grande homenagem a Tarsila do Amaral e à cultura brasileira.

 

Sinopse

 

O Grêmio Recreativo Escola de Samba Virtual União do Samba Brasileiro vem, em sua primeira apresentação pela Liga Independente das Escolas de Samba Virtuais, trazer um colorido contagiante para alegrar as pessoas de todo o país que estarão acompanhando nosso desfile.

Levaremos, ao nosso desfile, grandes momentos da maravilhosa obra de Tarsila do Amaral. Faremos um carnaval colorido e alegre, tipicamente brasileiro, como os quadros da pintora. Seus quadros servirão de base para a elaboração de nosso desfile. Nosso principal objetivo é formar uma cena bem brasileira, homenageando uma grande brasileira.

“Sagrado Coração de Jesus”, o primeiro quadro a ser pintado por Tarsila, nos inspira para abrirmos caminhos para a USB, pois Tarsila do Amaral traduziu em sua obra a essência do sagrado coração brasileiro, que hoje brota na alegria de cada sagrado coração sambista de nossa escola. Daremos também um toque impressionista em nosso carnaval, já que ela passou por uma fase impressionista no início de sua carreira.

Tarsila não participou da Semana de Arte Moderna, mas se juntou aos modernistas de 22, tendo grande importância neste movimento. Tarsila começa a despontar como uma inovadora.

Na alegria das cores e formas brasileiras, “A Negra” vem sambar nesse carnaval, pois Madureira está em festa. Celeiro de bambas, ícone do samba brasileiro, local onde as baianas descem do “Morro da Favela” para serem aplaudidas na procissão do samba. A faceirice da passista, a alegria do folião, os barracos que são coloridos em quatro dias de libertação se fazem presentes nessa grande pincelada de nossa tela.

Cores vivas e temas brasileiros unidos a formas geométricas. Essa foi a fase Pau-Brasil (da qual os quadros “Carnaval em Madureira”, “Morro da Favela” e “A Negra” fazem parte), uma espécie de cubismo à brasileira. Brasil das grandes metrópoles, da paisagem natural que encanta. Os peixes estão na rede, na rede de “O Pescador”. Pescador que vai ao mar, protegido por Iemanjá, com muita fé em Deus e nos orixás, nos santos e nos patuás. O colorido brasileiro se faz presente em cada canto de nossa pátria: da magia dos à simplicidade de uma feira.

“Abaporu”, o antropófago, homem (aba) que come (poru), vem trazer a deglutição cultural proposta pelo Movimento Antropofágico. Suas formas deformadas mostram que algo novo está nascendo, como no quadro “O Ovo” ou “Urutu”. Abram alas para Macunaíma, personagem criado por Mário de Andrade, que vem, mesmo sem caráter, trazer sua companheira Ci, a mãe do mato, para a maior festa do país de “pouca saúde e muita saúva”. E nossa comilança cultural continua, afinal nosso país é o país dos negros, brancos, índios, amarelos, diversas raças e diversos credos na mais pura mistura. Esse é o país que influencia e se deixa influenciar, que encanta e se deixa encantar. É o United States do Brasil e é também o “meu Brasil brasileiro, terra de samba e pandeiro”, que escreve uma língua e fala outra. É realmente, o resultado da deglutição de um pouquinho de cada parte do mundo. E o sonho dos “antropófagos” era o da fusão desses vários elementos, ao invés de eles existirem separados em nosso país.

E os sóis laranjas, “marca registrada” dos quadros de Tarsila nesta fase, vem iluminar nosso carnaval em um lindo amanhecer sobre “O Lago”, nos mostrando também outra marca desses quadros, os cactos. Mas esses sóis também anoitecem, nos mostrando “A Lua”, quadro preferido de Oswald de Andrade, segundo marido de Tarsila.

Tarsila pintou “Operários” e iniciou a pintura com temas sociais no Brasil. Mostrou nessa pintura esta gente sofrida que luta para mostrar seu valor, sobrevivendo em uma terra sem justiça e sem leis. Essa gente que atende pelo nome de “povo”.

Participou da I Bienal de São Paulo. Em 1973, a estrela foi morar no céu.

E a estrela é um sol laranja que iluminará para sempre a arte brasileira!

Unidos do Imperador Niterói 2015 – “…E O DIA CLAREOU: EXEWÊ BÁBÁ, EPÁ BÁBÁ! UM CÂNTICO EM YORUBÁ PELA PRESERVAÇÃO DA VIDA!”

INTRODUÇÃO:

A G.R.E.S.V. Unidos do Imperador Niterói, em sua missão ao apresentar um enredo afro-contemporâneo como proposta para o desenvolvimento do seu desfile em 2015, expondo o desenvolvimento do mundo em que vivemos sobre a visão Yorubá, abordando lendas (itãs) sobre a divindade Oxaguiã (fio condutor), e sua ligação com os dois mundos: Orum; (mundo espiritual) e Aiyê; (mundo material) e seus laços que tem com cada elemento que sustem nossa existência (fogo, ar, terra e água) através dos orixás a qual ele tem ligação e representam esses elementos: Exú e Iroko, Iogunedé, Oxóssi, Erinlé, Ogum e Xangô – (terra e fogo) e Oxum, Yemanjá, Oyá, Obá e Yewá – (ar e água), trazendo nesse contexto uma mensagem de preservação e sustentabilidade para o mundo, ressaltando a importância do equilíbrio humano em respeito ao planeta e sua diversidade. Mostrando que a preservação desses elementos contribuem para a conservação da vida, que alimenta o mundo e, assim, aos que nela vivem.

SINOPSE:

Vou lhes contar um ‘itã’ sagrado, que foi passado de geração em geração, fundamentado na cultura Yorubá; um itã sobre o orixá Oxaguiã, que nos ajuda a compreender a devoção e culto a esta divindade em diversas nações africanas (Jeje, Ketu, Nagô, Bando, Angola, Efun, etc…) Também cultuadas no brasil, (candomblé e umbanda), e sua importância na construção do mundo material e na conservação da vida humana através da forças que suprem a vida orgânica do mundo -(os orixás):

“… De lá, de onde o vento fez-se em curva, o primeiro raio de luz surgiu de Orum ao desprezadoaiyê: dentro da concha de um caramujo, filho da existência, viu-se surgi o encanto que apartou a noite, clareou aos olhos da terra o axé emanado do panteão funfun: o menor dentre os celestes, o mais jovem guerreiro branco, ainda sem cabeça, mas com ideais formados, nasce Oxaguiã que, desorientado por não ter cabeça, vaga por Aiyê sem rumo, causando caos por onde passa… Orí, vendo o sofrimento do jovem oxalá, prepara para ele uma cabeça de inhame e o presenteia, o jovem aceita e fica muito feliz por ter uma cabeça branca… O problema é que a cabeça de inhame esquentava demais e isso o perturbava, fazendo-o cometer atrocidades por Aiyê. I, senhor da morte, vendo que Oxaguiã sofria, ofereceu-lhe a sua cabeça fria e negra, ele, apesar do medo que sentia da morte, aceitou, pois o a dor e a
quentura eram insuportáveis. Contudo, a cabeça da morte era fria demais isso perturbava o orixá, que por conta da constante presença da morte, se perturbava, sua alma entristecia-se… Vendo Ogum o jovem Oxalá e todo o seu sofrimento, perguntou-lhe: – o que acontece contigo?
– sofro pois não tenho paz! A cabeça que Orí me ofereceu é muito quente e me causa dor, porém, a cabeça de Ikú me perturba e me causa tristeza… Responde o desorientado orixá. Ogum então tenta retirar com sua espada as cabeças que tanto o causava tormento… Porém, tanta força tinha ogum que ambas cabeças se misturaram, tornando-se em uma. Assim, a cabeça de Oxaguiã se tornou azul, e já não sentia dor nem perturbações, pois sua cabeça encontrou o equilíbrio. Ogumlhe presenteou com sua espada, para que a morte não mais se aproximasse do orixá. Muito grato pelo ato, Oxaguiã promete lhe ser amigo fiel por toda vida, e retira do manto azul de ogum um ojá, prometendo utilizar em suas próprias vestes em homenagem ao amigo que apaziguou sua cabeça…”

Oxaguiã e ogum, amigos inseparáveis, partiram pelo mundo desbravando terras, conquistando reinos, edificando cidades prosperas que emanavam fartura nas colheitas, até a chegada a cidade de Elleejegbô, onde Oxaguiã foi coroado rei desse povo. Foi com ogum que Oxaguiã aprendeu a guerrear, tornando-se o único “guerreiro funfun” (guerreiro branco) dentre os orixás ligados a criação e a Olorum. E foi Oxaguiã que criou os instrumentos de guerra e agrícolas que ogum, modelava em ferro, hoje, tão importantes para o setor industrial e desenvolvimento das nações.

Com E, orixá ligado a criação e ao verbo, ‘o mensageiro’ que faz a ligação entre os mundos aos homens, Oxaguiã fez-se elo direto do panteão celestial a terra, aproximando-se dos homens, graças a sua ligação com este orixá, o elo céu e terra, o divino e o profano foram rompidos, e a mediunidade dada aos homens.

Sua relação com Iroko, orixá também pertencente ao panteão funfun ligado ao tempo e protetor das grandes arvores ancestrais, ensinou o respeito ao tempo, aos valores, a conservação das coisas vivas e brancas, todas, pertencentes a Oxaguiã e aos funfuns.

Com logunedé, orixá que retém em si o encanto e a magia, aprendeu a observar o encanto contido na essência das substâncias. Tudo é vivo e encantado, com isso, Oxaguiã aprendeu invocações aos animais e tudo pertencente a floresta, sendo Oxóssi, o grande caçador, que preserva as matas e dá aos homens a prosperidade do cultivo agrícola, dando-nos assim meios de sobrevivência.

Há em Erinlé, uma qualidade de ‘Odé’ conhecido como “caçador de elefantes brancos” toda a admiração de Oxaguiã: é o ‘O dos olhos de guiã’, e esta ternura lhes é recíproca. Erinlé presenteia Oxaguiã com grandes marfins brancos. Mostrando sua força e prudência.

Divide com xangô, orixá que comanda os trovões, rei da cidade de Oyó, orixá que comanda os instrumentos feitos a partir da madeira, o fundamento da mão-de-pilão, instrumento utilizado para o preparo de alimentos e outros fundamentos da cultura afro. Criação de Oxaguiã, para preparar seu prato predileto, o ‘inhame pilado’ que ajudou a humanidade na criação de instrumentos para o preparo dos alimentos, sofisticando e melhorando a alimentação dos povos.

Oxum, mãe dos rios de águas doces, dela flui a fonte da vida humana, dela é constituída a estrutura corporal, os tecidos, órgãos, protetora do segredo de Ifá, rainha da adivinhação e senhora da magia. Com ela Oxaguiã aprendeu os mistérios ocultos da magia, o respeito aos fundamentos, aos preceitos, e respeito a água potável, meio para o preparo dos alimentos e fonte elementar da vida.

Yemanjá Sobá –  qualidade de Yemanjá anciã, conhecida como “fiadeira de algodão” é desse material que é feito o alá, (manto branco) dos orixás funfuns e o “alá de orixalá”, a qual Oxaguiã foi eleito rei sobre os orixalás, pelo seus atos de prudência, respeito e humildade. É o Babalaxó, (senhor do Axó), Oxaguiã também é o responsável pelo manto que aquece o corpo humano.

Com oyá, deusa dos ventos e tempestades, divide com Oxaguiã o fundamento que comanda os ancestrais (Egunguns) através do ‘Atorí’, vara da arvore sagrada de Iroko, divindade presente na circulação sanguínea, assim, não distingue pobres e ricos, ela conhece e está em todos.

Assim como Oxaguiã, obá é uma deusa guerreira, que faz uso da espada e do escudo para lutar pelo bem e defender a verdade. Como caçadora, também faz uso do Ofá, instrumento que pertence a Oxóssi e outros orixás das matas, os utilizando para a caça.

Yewá!… Deusa da persuasão, dona dos disfarces, da dissimulação, liga-se a Oxaguiã pela oratória, pelo dom da fala dotada a este oxalá, onde fazem um elo para arquitetar estratégias, nos ensinando o poder das ‘guerras ideológicas’ quando contribuem para o desenvolvimento da humanidade.

E assim é constituído o equilíbrio de Orum e Aiyê: cada orixá é responsável pela conservação elementar da vida. O fogo, a terra, o ar e as aguas… O respeito aos minérios, a floresta, aos animais e a vida. E Oxaguiã é o elo dos mundos, é quem sustêm esse ciclo da vida, ininterrupto, quem zela pela ordem da humanidade e nos repassa a lição que aprendeu com os orixás: sem equilíbrio não há harmonia, não haverá sub existência! É preciso que o homem aprenda a conservar as riquezas minerais do nosso planeta para a conservação da vida.

Essa é a mensagem que a G.R.E.S.V. Unidos do Imperador Niterói quer perpetuar, que no amanhecer de cada dia, possamos ser guerreiros que lutam pela paz e harmonia do nosso mundo.
Asé ô!!!
Autor do enredo: André policarpo

Texto e pesquisa: André policarpo

Caboclinho Verde 2015 – “MANIFESTO PELA VIDA E EM FAVOR DA FAMÍLIA”

Sinopse:

Era um país deveras feliz. Um Brasil maravilhoso, onde imperava a bondade e a pureza da família tradicional: um homem, uma mulher e seus filhos. Todos brancos, cristãos e tementes a Deus. Iam ao culto duas vezes na semana, para lutarem contra o mal, partilhavam com o Senhor o valor de seu trabalho, entregando o dízimo a Igreja. Recitavam, fervorosos, os versículos bíblicos contra os inimigos perversos, em nome do Senhor.

Acreditavam que o mal circulava pela Terra, possuindo os cordeiros do Pai. Ele deveria ser expulso de forma rápida e só o Senhor pode os salvar. Apesar de serem muitos, Deus enviou mensageiros de sua palavra para pregarem o bem nesse mundo. E, como bons filhos, respondiam com fé a mensagem dos enviados de Cristo:

“Vocês querem um país onde a mulher seja desfrutável e descarte o filho que leva no ventre? (NÃO!)

Vocês querem um país tomado por Sodoma e Gomorra, cheio de invertidos luxuriosos que espalham doenças venéreas? (NÃO!)

Vocês querem um país governado por comunistas ateístas que são contra a palavra de Deus? (NÃO!)

Vocês querem um país tomado pela religião demoníaca e pelas macumbas? (NÃO!)

Vocês querem um país tomado pela prostituição e pela fornicação e pelas drogas vendidas em cada esquina? (NÃO!)

Vocês querem um país tomado por selvagens guerrilheiros que se travestem de ‘donos da terra’, tomando as terras produtivas que nos dão alimento? (NÃO!)”

Seguidos por essas mensagens, passaram a lutar, em nome de Deus, contra o exército de Satanás. Mas em meio àquela família temente ao Senhor, um dos filhos, começou a se questionar: se Deus pregava a bondade dos homens, que todos somos irmãos, sua imagem e semelhança, por que Satanás está brigando pela igualdade e pelos direitos? Por que as mulheres devem ser tratadas diferente dos homens? E por que gays devem ser ofendidos, agredidos e humilhados? O que faz a minha fé maior do que a do outro? Não seria Deus que deveria lutar por essa igualdade?

Com essas reflexões em mente, o jovem cordeiro de Deus viu de perto a luta pelos direitos civis dos movimentos LGBT, pela igualdade de gênero, a bandeira do feminismo, as políticas socialistas, a briga por igualdade racial, legalização da maconha, pela tolerância religiosa, defesa das populações indígenas e direitos trabalhistas. Nem tudo que viu e o ouviu assimilou ou passou a adotar, mas passou a respeitar, o que não via entre seus irmãos. E parece que Deus não era totalmente contrário a tudo aquilo, pois, ao poucos, as vozes das diferenças ecoaram nas casas, ruas e redes, em meio aos gritos de desespero dos que faziam guerra em nome de Cristo.

Uma “guerra santa” se constituía nas ruas. Movimentos de mesmos objetivos, com princípios distintos, desfraldavam seus estandartes e impunham suas armaduras, duelando nos espaços públicos. Outros, em prol da zoeira e a favor da manutenção da atual situação, se posicionavam dentro do campo de batalha. Manifestações de impeachment dos “esquerdistas” começaram a se infiltrar nas ruas e nas redes sociais. Paulistanos se mobilizaram também querendo independência, mas a falta d’água impediu-os de ficar por muito tempo protestando, ao passo que militantes nordestinos eram a favor no que estava dado, ostentando a sua água. As forças armadas lutavam contra os cidadãos de bem. Era o apocalipse se aproximando.

Mas Deus preparava surpresas a seus filhos e revolucionaria a política daquela terra feliz. Pelo voto do povo, um novo momento se construía, bancadas macumbeiras, ateístas, da árvore, do arco-íris. Prostitutas eleitas governadoras, o machismo criminalizado, as mulheres no poder. E no fim do culto cansado, do pastor perplexo com aquela situação, o menino grita em uma só voz: “Aleluia, Bee!”.

Ponte Aérea 2015 – “NGOLO-POTIGUAR: ARTE E MAGIA DA CAPOEIRA”

Nego finca a alma no chão

Risca a terra, levanta o pé

Abre roda para o ritual

Deixa o homem, vira animal

 

Vem menino ver a raça do povo

Em Mucope, a ginga angolana

No Mufico, a essência Ngolo

Vai menino pro Congo e Gana

 

De Luanda, Cambinda e Benguela, ê Camará

Vinha negro usando o corpo pra lutar

Mas o branco trazendo cobiça, ê Camará

Nos seus pés a corrente conseguiu botar

 

No negreiro um povo partiu, ê Camará

Mãe Angola nos mares se pôs a chorar

Desembarcam no nosso Brasil, ê Camará

E Ngolo outra ginga foi encontrar

 

É de Maraná, é de Maraná

Em Palmares negro descobriu

O jeito do índio duelar

É de Maraná, é de Maraná

Capoeira então surgiu

Do Ngolo-Potiguar

 

O jogo ligeiro a Bahia encantou

Pandeiro, atabaque e a berimba tocou

Na reza cantada, fazem louvação

Na roda, o jogo dos pés e das mãos

Na ginga a forma de ter proteção

 

Contra chibata, contra a tortura

O corpo e dança mostram a bravura

Marcam as paginas da literatura

E a visão dos artistas

Sobre as lutas nas ruas

 

Zum zum zum capoeira mata um

Zum zum zum capoeira mata Um

 

O zum zum zum está formado

Capoeira mal tratado

Sua dança proibida, arte torturada

 

Mas o mestre falou que somos marinheiros

Aguente com fé, vai mudar maré

O que foi proibido, virou patrimônio

Capoeira valente, na história deu nome

Os mestre desse gente defenderam a arte

Semearam a cultura, empunharam o estandarte

 

Tá no corpo, tá na fé, nessa voz que não cala

Tá na ginga,tá no pé, no bailar mestre sala

Tá no corpo, tá na fé, nessa voz que não cala

Tá na ginga, tá no pé, no bailar mestre sala

 

JUSTIFICATIVA:

 

A Ponte Aérea contará em 2015 o enredo “Ngolo-Potiguar: Arte e magia da Capoeira”. O enredo aborda a história de uma das mais importantes manifestações culturais e artes marciais do país. Visamos realizar a construção de uma história pouco difundida e até hoje sem traços certeiros de seu processo de desenvolvimento, para tanto elaboramos uma sinopse baseada nas cantigas de roda de capoeira e pautamos o desenvolvimento do enredo em cinco principais momentos.

O enredo parte do Ngolo, ritual realizado pelas tribos de Angola, cujo significado, em kimbundu, é “zebras”. Nesses rituais, homens incorporavam zebras e sua força, duelando usando os pés, como se fossem as batalhas desses animais. O objetivo do ritual era encostar os pés na cabeça do oponente. Sagrando-se vitorioso, teria como premiação uma das mulheres da tribo, em estado de “efendula” ou “mufico”, que era o período de fertilidade. Os combates aconteciam em rodas, observados pela corte da tribo.

O ritual se expandiu por outras regiões de Angola, sendo conhecida também como Mufico, até se propagar pelo continente, sobretudo no Congo e Gana, enraizando-se, definitivamente, na cultura africana. Os três países de principal expansão e prática do ritual Ngolo foram também pontos fundamentais de exploração e envio de escravos. Os movimentos do ritual já eram praticados, naquele momento, como técnicas de combate e, com o fortalecimento do processo de colonização e escravização na África, as práticas e culturas dos povos do continente permearam novos territórios, e o ritual fez parte disso. Ganhou propulsão em países da América Central, entretanto foi no Brasil que se consolidou, expandiu e adotou novas características.

Assim como na luta contra o aprisionamento no território africano, os movimentos do Ngolo foram armas de combate dos escravos foragidos nos engenhos, no Brasil. Entretanto, é no Quilombo de Palmares que o Ngolo passa a ser Capoeira, tendo a fundamental colaboração da cultura indígena. Palmares era um refúgio não apenas de negros, mas de índios, sobretudo os Potiguares, tribo de maior contingente na região. Esses índios realizavam um ritual de características semelhantes ao africano, no que concerne a seus movimentos: o “Maraná”. E através do encontro da cultura potiguar e africana surge a “capoeira”, termo Tupi Guarani cujo significado é “capim rasteiro”, em referência aos locais onde as rodas eram realizadas.

A Capoeira surge como uma arte essencialmente brasileira, originada a partir da miscigenação de suas culturas. Aos poucos, se expande, sobretudo no território baiano, ganhando dimensões bem maiores que a ritualista na qual as danças que a originaram apresentavam, mas se tornando a principal arma de luta dos escravizados em busca de liberdade. Ao longo das revoltas no Brasil Imperial, em movimentos a favor da abolição ou de respeito a figura negra, os golpes surgiram como ferramenta de batalha. Entre as mais relevantes, pode-se ressaltar a “Revolta dos Malês” e a “Revolta da Chibata”, tendo João Cândido como o primeiro grande nome reconhecido da Capoeira na história brasileira.

Pelo caráter de defesa e luta que a Capoeira adquiriu, a arte foi proibida no Brasil, durante o século XVIII. Por quase duzentos anos, foi praticada de forma clandestina e, nesse movimento, alguns homens foram fundamentais para semear essa cultura e difundir a luta, ostentando a posição de mestres, como Camafeu de Oxossi e Besouro. Não se restringindo apenas a cultura baiana, marcada fundamentalmente por essa arte como exaltou Jorge Amado, seguiu estampando as páginas da literatura de outros grandes nomes, como Câmara Cascudo, e protagonizando fatos memoráveis nas boemias e guetos cariocas, caso de Madame Satã. Ledo engano pensar que a Capoeira veio ao Rio apenas para brincar nas ruas da Lapa. Ela se ergue todos os anos no mês de fevereiro para defender a bandeira do samba e conduzir o bailado de outros mestres, os mestres-sala, cuja dança se originou através dos passos dos rituais africanos e da Capoeira brasileira. Saudando os grandes mestres do samba e ratificando o valor desses dois patrimônios brasileiros, que a Ponte Aérea encerra o seu carnaval.

Cupincha de Campo Grande 2015 – “O IMPOSSÍVEL É POSSÍVEL?”

Descia o Abutre a ladeira de sua comunidade, a devanear sobre diversas coisas, completamente perdido em seus pensamentos, tentando definir um enredo para o carnaval. Até que uma topada em um objeto estranho lhe devolveu a atenção à realidade circundante. Que treco mais esquisito, como será que isso veio parar aqui? – Indagou a si mesmo.

Vendo que o objeto encontrava-se bastante empoeirado, esfregou-o com suas garras aduncas para retirar a poeira. Nesse momento, para sua surpresa, um ser fantástico surgiu de dentro do objeto.

Eu sou o gênio da lâmpada mágica e você me libertou, meu amo, conceder-lhe-ei três pedidos. – disse aquela criatura esquisita.

Mas isso é impossível, disse o Abutre, ainda atônito com aquela situação, olhando para dentro da lâmpada como se de lá ainda pudesse sair mais alguma coisa.

Nada é impossível e a própria história do homem confirma esse fato. – retrucou o Gênio.

Hum, acho que isso dá um belo enredo, pensou o Abutre, imaginando que aquela ideia poderia dar samba. E em seguida indagou, posso pedir uma coisa?

Até três, amo…

Eu quero que você me explique o que me falou: Como a história da humanidade mostra que o impossível é possível? – Quis saber o Abutre.

Para explicar isso, devo começar pela própria origem do universo, sem o qual não haveria a Terra e muito menos o homem, começou a falar o Gênio diante de um Abutre atento aos mínimos detalhes. O próprio surgimento do universo foi um desafio ao impossível, pois ele surgiu de uma explosão, sem a qual continuaria sem existir. Essa explosão foi chamada muito mais tarde de Big Bang pelos cientistas. E o que dizer da aurora da vida? Levou tempo para que surgissem as condições para o surgimento da vida, um verdadeiro milagre.

Primeiro surgiram plantas e animais primitivos. Mais tarde surgiu o homem. Estava longe de ser o maior e mais forte, vivia em um ambiente hostil, cercado de animais gigantes e ferozes, sempre escondido, tremendo de fome e de frio, parecia impossível que sobrevivesse por muito tempo, mas não é que se organizou, lutou, evoluiu e venceu, lutando contra tudo e contra todos?

Da evolução humana veio a vida em sociedade, mas em vez de se unirem, os homens se dividiram; surgiram os conflitos, a ambição, a escravidão, levando o homem explorado a buscar reverter situações que pareciam impossíveis. A história nos dá vários exemplos disso, como a travessia do Mar Vermelho por Moisés à frente de seu povo e a queda do Império Romano. As grandes navegações, por sua vez, mostraram que para o homem nada é impossível, ao ser comprovado que existia algo além da linha do horizonte.

E o que dizer dos avanços da Ciência? As verdades até então absolutas foram colocadas em xeque. A Terra é o centro do universo? O mundo é quadrado? Com o Renascimento surgem as contestações e a ciência prova que o impossível não é tão impossível assim. Mais tarde, quem diria, o homem pisou na lua. E não é que até hoje tem gente que diz que isso é impossível? Imagina o que diziam antes de o homem alcançá-la?

Por fim, na literatura encontramos vários episódios e personagens que mostram como quase tudo nos é possível, como a figura da Fada Madrinha, que torna o impossível possível com sua varinha; e o que dizer de “Romeu e Julieta” e seu amor impossível; e da fábula “A Lebre e A Tartaruga”? Embora sejam histórias de ficção, têm o seu cunho moral, pois são escritas para motivar o homem a buscar o improvável e apostar na perseverança. – Concluiu o Gênio.

Muito bom o seu relato, Gênio, vai me ajudar bastante. Interessante saber pela história que o impossível é possível. Mas ainda posso pedir mais alguma coisa? – Indagou o Abutre, maravilhado com o relato.

Sim, meu amigo Abutre, há mais dois pedidos. Pode pedir. – Respondeu o Gênio.

Você falou que o homem sempre luta para tornar o impossível possível. Isso é estranho. Há tantas coisas que parecem impossíveis de acontecer mas que melhorariam muito a nossa vida. A igualdade racial, a tolerância religiosa, o respeito à natureza e a paz mundial. Enfim, eu queria habitar um mundo melhor.

Seu pedido é uma ordem! E vamos ao seu último desejo. – Emendou o Gênio.

Hum! Que que eu peço? Já sei… tem um monte de coisas que eu queria saber, coisas que parecem impossíveis, mas que todo mundo quer saber: os números da Mega-Sena, se existe vida em outros planetas, se Elvis não morreu, se existe vida após a morte…

Caro Abutre, eu também gostaria de ter resposta para essas perguntas, mas mesmo sendo um gênio, eu não tenho como responder. Mas você pode pedir qualquer outra coisa, pois ainda tem direito a um último pedido.

Qualquer coisa? – hesitou o Abutre, por um instante. – Então eu quero ganhar o carnaval! Será que é possível?

Sim, meu amigo Abutre, isso é possível. – concluiu o Gênio da Lâmpada. – mas somente após a apuração você terá a sua resposta.

 

CARLOS AUGUSTO