Caboclinho Verde 2015 – “MANIFESTO PELA VIDA E EM FAVOR DA FAMÍLIA”

Caboclinho Verde 2015 – “MANIFESTO PELA VIDA E EM FAVOR DA FAMÍLIA”

Sinopse:

Era um país deveras feliz. Um Brasil maravilhoso, onde imperava a bondade e a pureza da família tradicional: um homem, uma mulher e seus filhos. Todos brancos, cristãos e tementes a Deus. Iam ao culto duas vezes na semana, para lutarem contra o mal, partilhavam com o Senhor o valor de seu trabalho, entregando o dízimo a Igreja. Recitavam, fervorosos, os versículos bíblicos contra os inimigos perversos, em nome do Senhor.

Acreditavam que o mal circulava pela Terra, possuindo os cordeiros do Pai. Ele deveria ser expulso de forma rápida e só o Senhor pode os salvar. Apesar de serem muitos, Deus enviou mensageiros de sua palavra para pregarem o bem nesse mundo. E, como bons filhos, respondiam com fé a mensagem dos enviados de Cristo:

“Vocês querem um país onde a mulher seja desfrutável e descarte o filho que leva no ventre? (NÃO!)

Vocês querem um país tomado por Sodoma e Gomorra, cheio de invertidos luxuriosos que espalham doenças venéreas? (NÃO!)

Vocês querem um país governado por comunistas ateístas que são contra a palavra de Deus? (NÃO!)

Vocês querem um país tomado pela religião demoníaca e pelas macumbas? (NÃO!)

Vocês querem um país tomado pela prostituição e pela fornicação e pelas drogas vendidas em cada esquina? (NÃO!)

Vocês querem um país tomado por selvagens guerrilheiros que se travestem de ‘donos da terra’, tomando as terras produtivas que nos dão alimento? (NÃO!)”

Seguidos por essas mensagens, passaram a lutar, em nome de Deus, contra o exército de Satanás. Mas em meio àquela família temente ao Senhor, um dos filhos, começou a se questionar: se Deus pregava a bondade dos homens, que todos somos irmãos, sua imagem e semelhança, por que Satanás está brigando pela igualdade e pelos direitos? Por que as mulheres devem ser tratadas diferente dos homens? E por que gays devem ser ofendidos, agredidos e humilhados? O que faz a minha fé maior do que a do outro? Não seria Deus que deveria lutar por essa igualdade?

Com essas reflexões em mente, o jovem cordeiro de Deus viu de perto a luta pelos direitos civis dos movimentos LGBT, pela igualdade de gênero, a bandeira do feminismo, as políticas socialistas, a briga por igualdade racial, legalização da maconha, pela tolerância religiosa, defesa das populações indígenas e direitos trabalhistas. Nem tudo que viu e o ouviu assimilou ou passou a adotar, mas passou a respeitar, o que não via entre seus irmãos. E parece que Deus não era totalmente contrário a tudo aquilo, pois, ao poucos, as vozes das diferenças ecoaram nas casas, ruas e redes, em meio aos gritos de desespero dos que faziam guerra em nome de Cristo.

Uma “guerra santa” se constituía nas ruas. Movimentos de mesmos objetivos, com princípios distintos, desfraldavam seus estandartes e impunham suas armaduras, duelando nos espaços públicos. Outros, em prol da zoeira e a favor da manutenção da atual situação, se posicionavam dentro do campo de batalha. Manifestações de impeachment dos “esquerdistas” começaram a se infiltrar nas ruas e nas redes sociais. Paulistanos se mobilizaram também querendo independência, mas a falta d’água impediu-os de ficar por muito tempo protestando, ao passo que militantes nordestinos eram a favor no que estava dado, ostentando a sua água. As forças armadas lutavam contra os cidadãos de bem. Era o apocalipse se aproximando.

Mas Deus preparava surpresas a seus filhos e revolucionaria a política daquela terra feliz. Pelo voto do povo, um novo momento se construía, bancadas macumbeiras, ateístas, da árvore, do arco-íris. Prostitutas eleitas governadoras, o machismo criminalizado, as mulheres no poder. E no fim do culto cansado, do pastor perplexo com aquela situação, o menino grita em uma só voz: “Aleluia, Bee!”.

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