Cangaceiros 2015 – “O ROBIN HOOD DO SERTÃO”

De João Sane Malagutti

 

APRESENTAÇÃO:

De todas as riquezas que o ser humano pode ter, não lhe basta as naturais. Vive em função dos metais e do papel que, num ápice de genialidade, inventou o sistema de valores monetários e àquilo que antes era gratuito e uma troca de gentilezas passou a ser objeto capital de desejos fugazes. Esse sistema minou as relações humanas e concentrou aquisições em grandes quantidades nas mãos dos fortes, dos favorecidos pelos interesses dos fortes e fez com que os fracos ficassem como marionetes de seus desejos. Os fracos foram suprimidos e mortos por séculos. No vale da escuridão que a noite banha sobre as matas é possível ouvir o ecoar de suas dores e lamúrias de tempos de desigualdade e desafetos. Ao amanhecer, sob o som de um cardeal que bebe a sua água nas margens do São Francisco, é possível ver a morte de frente sob o seu cantar que atravessa o nordeste.

Seu canto encanta. Leva a paz aos corações dos aflitos ao mostrar que a riqueza maior se encontra ali naquele chão e sob grossas camadas de peles e músculos. A coragem, bem como o amor, são armas em punho para quem quer mudar o sistema. Os bravos, ou amam demais ou são por demais valentes. São personagens dignas de um romance em literatura, mas cuja bravura pode romper a História.

Hoje a trupe mambembe nos mostra essa rica História de compaixão e, pede licença ao cardeal do nordeste para que ele os empreste a sua visão sobre as coisas do mundo para que através de suas vozes mostre o bravio em ação.

Senhoras e Senhores, atenção! Abrir-se-ão as cortinas e nesse palco iluminado, pela trupe de Jaboatão, com vocês: O Robin Hood do Sertão, Herói ou ladrão?

Aplausos!

 

PRIMEIRO ATO: O teatro da vida Real

 

Silêncio!

Luzes apagadas; o espetáculo vai começar!

Acendam-se as luzes e abram-se as cortinas.

Música ao fundo.

A bailarina voa nos braços de seu partner. Voa leve como um cardeal pousando na flor do sertão. O balé se configura. Entre o verde e o rosa de cipós e flores o pássaro leva a maior riqueza da humanidade em seu bico: a água. Tão escassa no sertão e que seduz ao cardeal; faz seus olhos brilhar diante de tamanha riqueza!

Água limpa e cristalina que, pobres desgraçados, sedentos e esfomeados, possuem a má sorte de não ter. Ela está confinada na propriedade de algum abastado coronel. Irriga as suas plantações cuja finalidade é servir à feira dos mortos de fome, cujas mãos calejadas têm que suar de esforço e poupar míseros níqueis a fim de apoderar-se de pequenas quantidades de comida.

Oh, sorte que vai embora das mãos de muitos para pousar na mão de um único!

Quem tem ouro tem tudo e quem tem água tem vidas. As vidas de pobres pecadores que tem sede e precisam sucumbir aos desejos vorazes de um só.

Mas, fazer o que? A vida é predestinação!

Será?

Ter que dividir o pão, o arroz e o feijão com os filhos. Míseras crianças magras cujas bocas esfomeadas têm que ser sustentadas. A massa dos miseráveis se prolifera e invade o sertão. É no abraço da mulher amada que o sertanejo esquece toda a sua pobreza e desgraça. É no amor que nasce mais crianças que podem ser a esperança de um futuro melhor.

Foi numa dessas noites de amor que os anjos ouviram as preces de pobres miseráveis. Um casal singelo, trabalhador ouvi o choro estridente de uma criança no irromper da noite sob as luzes do lampião.

Eis que nasce a luz de uma nova Era depositada nas mãos de simples sertanejos. A criança que nascia prometida a mudar o destino dos pobres sertanejos foi batizada e ganhou o nome de Virgulino Ferreira.

 

SEGUNDO ATO: Sob a luz do Lampião

 

Senhoras e senhores, quem resiste a uma vida de privações?

A juventude quer igualdade. Quer gastar a energia. Tem sinergia.

Quanta empatia pode sentir um jovem pelo seu semelhante?

Pode sentir muita quando não está ocupado correndo sobre os cavalos nos campos. Quando não está caçando pássaros com estilingue ou então forrozeando em busca de um rabo de saia. Quando não está desenvolvendo artesanato como trabalho.

Mas, quando chega em casa à noite e vê a pobreza estampada nos longos sulcos que estampam os rostos dos pais trabalhadores, o coração se revolta. Os olhos enxergam ódio na riqueza e transforma-se no desejo de possuir aquilo que não se pode ter.

Mas porque não poder ter? Pergunta-se o jovem.

Todos são humanos e iguais, são espíritos livres e bebem a mesma água de mandacaru quando a seca urge. Indignação essa, que levou os velhos sertanejos a entrar numa disputa por terras. Queriam o direito de plantar e colher. Beber água limpa e ter uma vida digna.

Mas o destino não quis assim. Durante uma contenda, os policiais ceifaram a vida dos pais daquele rebento predestinado; dilaceraram o seu bondoso coração. Pela primeira vez sentiu a morte lhe doer na pele.

As noites sozinhas lhe doíam à alma e sob a luz do lampião a mente acelerou e pensou em formas de driblar a pobreza. De não ter o destino dos pais. Ali, arquitetou em sua mente as maiores farsas e ligeirezas para buscar o sustento próprio e a dignidade. Buscando agir, tomba os óculos na ponta do nariz e trata de pegar o seu fuzil e fazer ajustes. Tamanha precisão e ligeireza de seu fuzil fez com que o cano brilhasse tanto quanto o lampião que lhe acolheu nas noites de tristeza e ali, jurou vingança.

Mas vingar-se da Polícia, dos grandiosos, de quem afinal?

Com sinal da cruz e com a devoção no seu “Padim Pade Ciço”, o jovem Virgulino recrutou homens vítimas da pobreza. Reuniu-se aos ambiciosos que queriam mudar a sua atual conjectura social e escolheu fazer a revolução com os mais viscerais seres humanos que encontrou.  Uniu-se aos mortos de fomes e despudorados ladrões para mudar a sorte dos sertanejos.

 

TERCEIRO ATO: Guerra e Paz

 

Avante homens!

Erguei os seus rifles e mostrai o poderio bélico de nosso grupo!

Mostrai ao mundo que justiça tem nome: chama-se Lampião.

Armados com as armas que roubaram dos macacos (policiais) e com roupas do mais puro couro dos rebanhos assaltados dos coronéis. O grupo seguia saqueando tudo o que desabonasse aos pobres e acalentavam os ricos.

Por onde passou no sertão, Lampião e seu bando deixou um rastro de sangue, mas também um rastro de satisfação. A cada gota, um prato de comida era erguido a um miserável. Bois eram doados para alimentação; porcos, galinhas e cabras alimentavam as crianças. Legumes, frutas e verduras eram distribuídos, e o mais importante, as terras eram divididas.

Lampião trilhou um ideal de igualdade. Construiu sem saber a fraternidade através da liberdade financeira. Igualou-se ao tripé da revolução francesa fazendo a revolução do sertão. Trouxe os ideais socialistas implícitos em sua revolta pessoal com a sociedade. Agiu tal e qual um anarquista.

Quando desmoralizou a polícia e sentiu-se vingado apaziguou o seu coração. Foi então que conseguiu enxergar o amor. À sua frente viu a mais bela de todas as Marias que cruzou o seu caminho. Apaixonou-se, encantou-se e ganhou mais que uma esposa. Ganhou uma aliada. Ganhou a inspiração para continuar seus gestos de bondades. Tirando sempre dos ricos e doando aos pobres foi idolatrado como o Robin Hood do sertão.

 

ATO FINAL: Os anais da História

 

A música abaixa.

A luz diminui. Pausa dramática.

Os atores se calam e deixam os olhares transmitir a tristeza. O grupo de cangaceiros enfim foi emboscado pela polícia. Sob a mira do fuzil, dois corações apaixonados. Um anjo e uma inspiração do tipo literária se abraçam no mais doce encontro como um clássico Shakespeariano: Romeu e Julieta.

Não haveria escolha. Morreriam por amor entre si e por amor à causa. Dois corpos seriam exibidos aos populares. As cabeças nas mãos dos poderosos militares mostraram que o capitalismo mais uma vez venceu e que igualdade somente existem nos livros e nos ideais de anjos que pensam no próximo.

Após a última página de uma luta e bravura o livro se fecha.

As luzes se apagam e o teatro se cala reflexivo.

Quando será que a igualdade social será uma realidade?

Sonho ou ilusão?

Eis queridos espectadores a história breve do “Robin Hood do Sertão”.

Aplausos.

Fecham-se as cortinas.

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