“Xamãs – Pássaros da Noite, Senhoras da Cura”

 

JUSTIFICATIVA:

 

Celebremos o poder daquelas “que sabem” curar – as xamãs. Coloquemos a mulher em papel de destaque, sejam parteiras, guerreiras, profetas. Se um dom especial lhe é ofertado, é para conceber o bem na luta contra a dor e o sofrimento. Desta forma, a crença nos espíritos de animais ou animais de poder, a força curativa e sagrada das plantas, o transe, o êxtase, a existência de outros mundos paralelos ao mundo material são os principais fundamentos do xamanismo. E a mulher, com o poder feminino do sangue de seu útero que gera a vida, cuja força assemelha-se àquela que cria o universo, é a sacerdotisa deste culto, mediadora entre o mundo espiritual de antepassados ou animais e os seres viventes. Toda magia e misticismo inserem-se na floresta amazônica e com a incorporação da mistura de culturas brasileira, recebe o nome de pajelança. A Pajé, depois de uma delicada e séria iniciação, com o auxílio dos encantados e dos caruanas, energias mágicas das florestas e rios, incorporando-as, realiza os rituais de cura. Toda essa transcendência da encantaria xamânica é o pilar de equilíbrio do mundo, portal para afirmação do amor e do respeito à natureza como essências de novos tempos.

 

SINOPSE:

 

“Eu sou o grito mais vibrante

Eu sou o silêncio da aldeia

Eu sou a serpente e a águia

Eu sou a xamã que clareia…

Claridade, unidade, diversidade, singularidade, fraternidade.

Somos movimento cósmico que se entrelaça

Esferas do globo terrestre em transe

O açoite que arrebenta em todas as tormentas

Lapidar a vida na manhã dourada

Transcendente, inerente, matéria criativa,

A vida do planeta em arrebol

Ao redor do atol, a dança dos pajés… Axé” 1

 

Que as energias positivas do sangue feminino, revoltas no útero do mundo, na passagem do plano interior para a materialização na esfera exterior, no momento sublime de um parto, funcionem como a força de criação do cosmos. Que elevem o poder feminino de quem dá a luz e à parteira que traz à vida, a uma condição liminar, concedendo a energia necessária para verdadeira consagração da mulher como aquela hábil a curar e perpetuar o dom da existência.

Desde a época pré-histórica há o culto à mulher que se transforma em ave para alçar um voo da alma ao mundo espiritual, recebendo dos espíritos o dom da cura para suprir a dor. Eis a força vital para conduzir o trabalho das que são inspiradas pelos espíritos a curar (xamãs), especialmente força maior do poder da mulher em exercer esse atributo de levar alento e a profetizar o caminho dos que têm dúvidas e revelar os mistérios da vida. Da Sibéria paleolítica há registro de mulheres xamãs usando em seus rituais, com o auxílio de tambores, gongos e chocalhos, o poder da fé e a sensibilidade religiosa para curar.

A arte tem poder. Através das pinturas nas paredes de cavernas e talismãs de cerâmica, encontradas no continente africano constata-se a prática dos rituais xamânicos por rainhas guerreiras, que mesmo lutando ao lado dos homens, eram as responsáveis por sua recuperação após as batalhas. No reino de Daomé, mulheres eram as curandeiras e oráculos do rei. Da convicção que todos os seres estão interligados, através de uma relação de causa e efeito no cosmos, os espíritos dos animais sagrados são o elo entre os diversos mundos espirituais e cabe à tartaruga manito realizar essa interconexão para a cura.

Invoque-se, então, os poderes espirituais dos animais. Águias, ursos, baleias, cobras, cada um com um dom divino de cura. Apontam os caminhos para a cessação da dor e incorporam-se ao corpo das xamãs para poderem realizar os rituais sábios de renovação e revitalização.

Na Mongólia, cavalos são os guardiões de espírito das xamãs. E um voo xamânico é expresso como o galope de um cavalo levando a amazona para uma jornada de êxtase em outros mundos. Os tambores combinados com a dança, o canto e a expressão corporal, são a invocação mais poderosa para entrar em transe, permitindo que os xamãs cavalguem seus cavalos, viajando para frente e para trás entre os reinos superior, médio e inferior. Esses galopes são o encontro e a possessão do corpo da xamã pelos espíritos protetores, interpretando suas sábias lições: as respostas para os aflitos.

As jornadas espirituais que as xamãs experimentam, quando do transe ou êxtase, guiam-nas para o submundo aquático, através dos sonhos, no qual são reveladas profecias e visões. Símbolos e animais em interação sensorial são a base para a interpretação deste sonho, indicando o caminho a ser explorado. Através dos espelhos de bronze, que absorvem e irradiam uma energia poderosa, abre-se a passagem capaz de gerar sonhos proféticos. Entre as águas, fonte de vida, os golfinhos com colar de diamantes permitem o acesso ao passado e ajudam na autonomia do futuro.

Assim como as fases da lua, somente o sangue feminino, essencialmente sazonal, confere às mulheres a percepção sensorial para tocar, escutar o canto e sentir a planta, sabendo qual deve ser a usada. Ervas, em chás e infusões, cada uma possui diferentes características, dependendo da hora do dia e da estação do ano em que são colhidas. E, ao colhê-las, não esquecer da oferenda destinada à cura, pois este nobre ato exige interação entre as ervas, xamãs e pacientes. Plantas psicodélicas rompem o campo visual em imagens caleidoscópicas e liberam a alma do corpo para fazer um voo mágico no tempo e no espaço míticos, conversando com os deuses. A energia de vida dos xamãs move-se tão livre como a fumaça ou a eletricidade, rodopiando, penetrando em corpos.

As mulheres tecelãs, ceramistas, artesãs são seres criativos, geradores de vida que moldam o poder do cosmos com a representatividade dessa arte. A autoridade feminina é percebida uma vez que os processos de fiar e tecer, assim como o do nascimento, evocam a habilidade de acessar o mundo espiritual para obter o poder de criar algo novo. Como todos os seres e planos espirituais estão interligados, o cruzamento e entrelaçamento de fios durante a tecelagem forma uma trama da vida, assim como as teias de aranha que determinam o fim de uma vida, a transformação (simbolizada pelas borboletas), contrabalanceando a morte e o renascimento. Daí a capacidade de transcendência entre os sexos, com predominância da sensibilidade e da força do nascimento e da vida do polo feminino. Os jaguares são o símbolo-chave do poder de transformação xamanista, especialmente na ameríndia.

O xamanismo insere-se na região amazônica e sob a influência da miscigenação de raças e culturas, mestiçagem brasileira, recebe o nome de pajelança cabocla: crenças e práticas de cura difundidas e praticadas no norte do país. A pajé visa sanar doenças naturais e não naturais, auxiliado pelos encantados e pelos caruanas (entidades que vivem no fundo dos rios e matas, detentores de poder e sabedoria). É a responsável pela comunicação entre o mundo dos viventes e o mundo dos encantados; detentora da sabedoria e dos segredos dos rituais de pajelança em que há troca de energia entre ela e os caruanas.

Sendo o sangue feminino, símbolo de poder desde tempos imemoráveis, cujo movimento cíclico representa o próprio pulsar da vida, a mulher assume um poder muito mais forte e venerável que o masculino. Desta forma, as Pajés da região amazônica, após longo ritual de iniciação, repleto de provações e proibições, aprendem e perpetuam os segredos do culto originário das tribos indígenas do Marajó, sendo, também, defensoras e guardiãs da natureza e de sua sabedoria. É a pajé, que incorporando e sentindo o pulsar dos caruanas, metamorfoseia-se em ave, transitando entre o mundo dos vivos e dos mortos, para ter o dom de ministrar as ervas, orações, infusões e chás para curar doenças das populações ribeirinhas; afastar Anhangá dos pacientes e das calamidades.

Transcendendo do passado, observando o futuro, segue o xamanismo com sua sabedoria ancestral como pilar de equilíbrio entre os mundos. Saudações ao poder feminino, em voos cada vez mais profundos na alma para propagar a luz necessária para o bem de quem a ele se socorre. Em rituais de dança, canto, celebração, segue a mulher como principal responsável pela comunicação entre o mundo vivente e o espiritual para, com as lições dos animais sagrados, das plantas que curam e a força de florestas e águas, estabelecer a paz e a harmonia pela eternidade.

 

“Eu sou a dança da terra em todas as eras…

Eu sou à tua espera!” 1

 

1Adaptação de ‘Xamã (ShamRá)’.

00 – Comissão de Frente: O ritual Xamânico da Pajelança
01 – Ala 00: Xamãs Paleolíticas
02 – Casal Mestre-Sala e Porta-Bandeira: A transformação em ave e o voo espirtual
03 – Alegoria 01: O parto do mundo e o nascimento do Xamanismo
04 – Ala 01: Inscrições Rupestres
05 – Ala 02: Cerâmicas da visão do saber
06 – Ala 03: Candaces – Rainhas Guerreiras Africanas
07 – Ala 04: Agotime – Curandeiras Reais de Daomé
08 – Alegoria 02: A barca de tartaruga – O xamanismo africano
09 – Ala 05: Águias
10 – Rainha de Bateria: Cobras
11 – Ala 06: Tambores em Transe (Bateria)
12 – Ala 07: Pedrarias que Curam (Passistas)
13 – Ala 08: A fé nos animais sagrados – O Cisne
14 – Alegoria 03: Cavalos ao vento na mongólia
15 – Ala 09: Golfinhos com colar de diamante
16 – Ala 10: A visão: Submundo aquático dos sonhos
17 – Ala 11: Espelhos de Bronze
18 – Ala 12: A força das plantas sagradas
19 – Alegoria 04: A cura: chás, infusões – fases da vida, fases da lua
20 – Ala 13: Tecelãs Celestiais – Teias de Aranha, Trama da Vida
21 – Ala 14: Borboletas ao Luar: A transformação
22 – Ala 15: Transcendência entre os sexos
23 – Ala 16: Jaguares – Símbolo da transformação
24 – Alegoria 05: Ameríndia – Totens, Jaguares, Sabedoria Indígena
24 – Ala 17: Sabedoria Marajó
26 – Ala 18: A cura pela floresta – Os Caruanas
27 – Destaque de Chão: A força da Pajé
28 – Ala 19 – Anhangá – O rito contra o mal
29 – Ala 20 – Zeneida Lima e o Caruana Beija-Flor
30 – Alegoria 06: A pajelança brasileira na ilha encantaria
31 – Ala 21 – Velha Guarda: O legado para a eternidade